Pitadas de amor, política, sexo, inutilidades, poesia e filosofia.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Deus

Hoje um amigo perguntou: "Porque você não acredita mais em deus?" Ora, nunca deixei de acreditar, deixei de acreditar somente nessa balela que que as pessoas mesquinhas denominam de deus. Como posso acreditar na contradição suprema em todos os aspectos? - Os mais fervorosos podem se assustar ou repudiar essa pergunta, diriam: "que blasfêmia", mas eu continuo assim, acreditando nessa verdade insólita e perigosa.
Como acredetiar nesse Deus perverso e vingativo do Judaismo? Um Deus que pune os erros com a morte, onde os pecados são remidos pelo sangue.
Como acreditar nesse Deus mesquinho do cristianismo? Um Deus que quer ser louvado a todo tempo, um deus que é amor e que pune a desobediencia com o desprezo. É como ter um filho pequeno e dizer: "voce é meu filho e eu te amo, toma essa lista de afezeres e se não fizer alguma coisa que está escrito eu não serei mais o seu pai e não te amarei mais, será banido da minha casa" Isso é amor? tenho cá minhas dúvidas!
Como acreditar nesse Deus Prosmiscuo e mau do islamismo? Que derrama o sangue pela descrença dos seus contrários?
Como acreditar nesse Deus autruista do budismo? que determina que os desejos do corpo, não podem se manisfestar, que pune a alegria desmedida, que nega a própria natureza humana?
Acreditar nisso é o mesmo que acreditar naqueles Deuses gregos, que são sujos e vis como os homens! que se embriagavam, que se matavam, que se destruiam em busca de poder, que faziam orgias celestiais e que se isentavam de toda culpa em nome da própria divindade.
Não, não acredito em nenhum desses Deuses criados pelos homens, não acredito na tendencia divina de criar leis morais e regras sociais para controlar suas próprias criaturas.
Que sentimento egoista de pensar que existe um deus, que nos privilegia em detrimento de todas as obras da criação, que está a nossa disposição a ponto de mudar seus planos divinos por nossa causa. O que nos faz pensar que somos tão importantes ao máximo de exigir e fazer concessões a uma criatura de tão elevada grandeza?
Prefiro pensar que não sou tao importante assim, que faço parte da natureza na mesma medida que uma folha faz. Que cresce absorve vida, que seca, que morre, e que esse é o fim. Porque pensar que sou mais importante que uma folha? Não fomos criados pelo mesmo poder criador? o que nos faz diferentes? a possibilidade de matar, e destruir? É, talvez sejemos menos importantes até que uma folha seca e sem importancia. Por que se eu fosse um deus, e uma das minhas criaturas enfeitasse um lago e a outra o destruisse, certamente que daria mais importancia a que enfeitasse.

"olhei ao meu redor e decidi buscar uma coisa com a qual eu poderia contar, e imediatamente pensei no sol, por que eu posso ver o sol ao contrario de tantos deuses, eu posso ver o sol de verdade, e ele me da tudo que preciso: calor, vida, comida, flores no parque, o reflexo no lago e, uma vez ou outra cancer de pele, mas pelo menos não há crucificações e não jogaremos niguem na fogueira só porque não concordam conosco. A adoração ao sol é simples e não há mistérios, milagres, rituais, ninguem pede dinheiro, não há hinos para aprender e não nos reunimos semanalmente só para comparar nossas roupas."


"Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!...
...Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos."

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Diálogo



Toca a campainha e o homem vai abrir a porta, não sem antes dar um passo de dança. Na porta está uma mulher. No caso, “mulher” é eufemismo. Ela é mais do que isto. Se Deus fosse mandar uma amostra do Seu trabalho para concurso, mandaria ela. Preciso me lembrar desta frase para dizer depois, pensa ele.

– Alô – diz ela.
– Alô. Entre.

Ela entra e olha em volta.

– Eu sou a primeira?
– Não. Desde os 15 anos que eu... Ah, você quer dizer a primeira a chegar. É, é.
– Bonito, seu apartamento.
– Depois que você chegou ele ficou.
– O quê?
– Bonito.
– Mmmm.

Que diálogos, pensou ele. Que diálogos! A noite prometia.

– Me dê seu casaco, sua bolsa...

Ela dá. Ele fica parado ao seu lado. Ela diz:

– Eu não vou tirar mais nada...
– Ah. Certo, certo.

Ele vai guardar o casaco e a bolsa. Ela examina a sala do apartamento. Em cima da mesa de centro há um balde com uma garrafa de champanhe em água gelada e dois copos compridos. O homem volta. A mulher diz:

– Você não falou que ia ter uma festa?
– Onde você estiver, é uma festa.
– Mas você disse que haveria convidados.
– Sim.
– Eu só vejo dois copos.
– Yes.
– E os outros?
– Que outros?
– Os outros convidados.
– Mmm. Sim. Bem. Se eles chegarem, eu...
– “Se”? Quer dizer que eles podem não vir?
– Pode ter havido um esquecimento.
– Eles podem ter se esquecido de vir à festa?
– Ou eu posso ter esquecido de convidar...
– Já vi tudo. A festa é só nós dois.
– Eu prefiro grupos pequenos. Você não?

Que timing. Que marcação. E não tem ninguém gravando isto!
A mulher sorri e rodopia no meio da sala. Seu vestido branco esvoaça.
Que pernas, que noite! Ele serve champanhe para os dois. Ela fala.

– Vou avisando uma coisa...
– O quê?
– Esta noite eu sou a Cinderela.
– Cinderela? Por quê?
– Até a meia-noite me comportarei como uma dama...

Ele ensaia um passo, arqueia uma sobrancelha e pergunta:

– E à meia-noite?

Ela o afasta com a mão.

– À meia-noite eu saio correndo.
– Não há por que se preocupar. Se você é Cinderela, eu serei seu servo, seu cocheiro, seu escravo.
– Então me serve mais champanhe, servo.

Ele serve, pensando: “Tomara que ela diga que as bolinhas do champanhe fazem cócegas no seu nariz...”.

– As bolinhas do champanhe fazem cócegas no meu nariz...
– Isso eu também faço e não sou champanhe.
– O quê?
– Cócegas no seu nariz.
– Não entendi.
– Esquece, esquece.

Não se pode acertar todas, pensa ele.

– Você não quer conhecer a minha biblioteca? – pergunta.
– Quero.– Venha. Traga o seu copo.
– Mas, espere... Ali é o seu quarto.
– Minha biblioteca fica no quarto. Os dois livros, ao lado da cama.
– Então traga para cá.
– A cama?
– Os livros.

Ele a enlaça pela cintura. Rodopiam juntos, depois caem no sofá. Ele pega a garrafa de champanhe e serve mais um pouco.

– Acho que você está querendo me embebedar...

Quem diz isto é ele.

– Se você já abriu o champanhe agora, o que é que nós vamos abrir à meia-noite? – pergunta ela.
– Talvez um zíper ou dois...

Preciso me lembrar de tudo isso para contar depois, pensa ele. De algum lugar no apartamento vem a voz de Frank Sinatra.

– É meia-noite.
– Como é que você sabe?
– Meu cuco.
– Pensei que fosse o Frank Sinatra...
– A imitação não é perfeita? Ele usa até o mesmo tipo de chapéu.

Ela tenta levantar do sofá.

– Hora de ir embora...
– Daqui você não sai, Cinderela.
– Mas você não disse que era o meu servo?
– Disse.
– Pois eu estou ordenando que você me leve para casa.
– Não.
– Por que não?
– Porque bateu meia-noite e eu me transformei num rato! Feliz Ano-Novo.

Meia hora depois, ela está nua, embaixo dos lençóis, e ele está numa mesa do quarto, escrevendo.

– Você não vem? – pergunta ela.
– Só um pouquinho. Estou tomando umas notas para não esquecer nada depois. Quando você falou que o champanhe fazia cócegas no seu nariz, o que foi que eu disse mesmo?


Luís Fernando Veríssimo

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Neruda


Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito...”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Morte


vi um vulto
ouvi vozes
tomei susto

suei frio
tive medo
arrepio

deitei na cama
fechei os olhos
senti ânsia

tudo preto
nenhuma saida
como um beco

Tiago Sousa

Acerca da imortalidade. Uma visão de Dalí.

Salvador Dali, propôs uma tese interessante, ele dissera que ao invés de os cientistas se ocupassem em conquistar o espaço, a lua e os planetas, eles deviam gastar toda energia e fundos, para o código genético, a hibernação e descobrir um meio de não morrermos, a imortalidade não é ponto cogitado pela ciência, há um progresso nas questões de prolongar a vida, curar doenças, contudo nehuma questão levantada sobre a imortalidade. Porque não tornar o homem imortal?
Quais seriam as implicações se esse ponto fosse atingido pela ciência? Em primeiro lugar, se a imortalidade fosse instaurada, os nascimentos não iriam mais acontecer, ou pelo menos não deveriam, evidente que se continua a nascer homens imortais, em cinquenta ou cem anos não haveria lugar na terra, a comida seria escassa, não haveira água potavel para todos, o mundo entraria em colapso. Portanto, a primeira iniciativa deveria ser a de proibir os nascimentos. Nesse sentido é importante pensar no choque piscológico que a humanidade teria em não poder gerar descendentes, depois disso viria o lugar do sexo, como ficaria a única ferramenta de reprodução do ser-humano? Nos primeiros séculos o sexo seria apenas diversão, mas pela lógica da evolução, se a função foi tirada e razão de ser deixa de existir os orgãos sexuais e todo seu aparelho atrofiaria e estaria fadado ao definhamento. Aqui entra um grande problema, sem os aparelhos sexuais é também possível que desapareça as diferenças de gênero, homens e mulheres não se diferenciariam mais já que não há sexo. Pensando na tese de Dalí, ganhariamos a vantagem da vida eterna em terra, sem alusões ao além, ao pós-morte e as crenças religiosas, entretanto não haveria renovação, nenhuma cara nova surgiria no planeta, teriamos que conviver com aquele vizinho insuportavel por toda eternidade junto ainda com aquele parente intratável, aquela sogra chata e aquele colega ciumento, e os governos, se agora eles já fazem rodízio, imagine quando não houver outra expectativa! Essa nova ordem mundial proposta por Dalí seria um tédio asfixiante. E aí surge um compêndio bem maior, será que a ausência da morte compensa ao ponto de trocarmos a mortalidade pela renúcia ao sexo?

Adaptado por Tiago Sousa apartir do ensaio Morrer ou não morrer? Eis a questão. Roberto Pompeu de Toledo. In: Revista Veja. Ed Abril, 20 de dezembro de 2006.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A imbricação de mal e bem

Bondade e maldade não são entes distintos, forças de oposição ou dualidade. Elas não são, senão a mesma substância, duas formas de manifestação de um mesmo impulso humano, digo o da vontade. A maldade é somente uma nomenclatura da moralidade cristã, não há maldade ou bondade efetiva, só há o que nós cristãos, designamos como tal. Só há amor em função da vida-própria, toda espécie do que chamamos de bem só é efetivado em função de nossa vida particular, assim como o mal que praticamos, sempre em função do nosso bem-viver. Praticamos o mal assim como praticamos o bem, visando uma melhora na nossa própria vida, nunca na do outro. O bem que faço para o outro, não é para o outro, mas uma tentativa interesseira de fazer o bem a mim mesmo, e o mal que pratico com o outro é a tentativa de refletir em mim algum tipo de prazer ou trazer benefícios a mim. Tudo se resume ao egoísmo, não no sentido pejorativo do termo, mas real, o amor a si e a própria vida, somos animais e mesmos que digam que somos superiores em função da ratio, herdamos toda animalidade que chamamos de primitiva. Toda maldade e bondade do ser-humano não é senão humanidade.

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